Faz algum tempo que quero escrever sobre “ a noite escura da alma”, no entanto, quis primeiro resgatar essa matéria sobre depressão que escrevi há quase dez anos no Jornal de Londrina. Falar sobre a noite escura da alma implica, necessariamente, passar por temas como depressão e crises diversas. Começemos com a depressão.
Parte 1 – Depressão – a vida sem esperança
“Ser alguém talvez seja sempre um gosto adquirido” (Patrícia Hampl)
De repente o mundo fica em preto e branco. Além do colorido, a energia se esvai. Não há qualquer brilho. Ela pode chegar de supetão ou sorrateiramente, sem que a gente se dê conta. E parece que a vida é mesmo assim. Misturada ao quadro geral de uma sociedade em crise (violência, dificuldades financeiras, individualismo exacerbado), quem vai se dar conta que o seu mau humor e pessimismo constantes (ou do colega ao lado) são sintomas comuns de uma doenças (ver quadro).
Entretanto, esta situação é freqüente. Embora, desde o século VI a.C. , Hipócrates já a descreva com o nome de melancolia, de acordo com as pesquisas, acredita-se que apenas cerca de 50% das pessoas que sofram de depressão recebam tratamento. Segundo o psiquiatra Luiz Alberto Nunes, um estudo com 256 mortes por suicídio relata que 63% foram vistos por clínicos gerais um mês antes de sua morte, mas poucos receberam ajuda para sua depressão. Não é à toa que ela é considerada a 5ª causa de saúde pública no mundo. Calcula-se que 6% da população sofra deste mal, sendo que 50% dos pacientes estão na faixa etária dos 20 aos 50 anos, o que provoca inúmeros sofrimentos não só aos portadores deste transtorno afetivo, mas também aos seus familiares e à sociedade em geral.
Os problemas não são apenas de ordem afetiva, mas também econômica, já que se trata de idade ainda produtiva, provocando afastamento no trabalho e rebaixamento na renda familiar, além de custos, inclusive nas empresas e nos setores de saúde. Ainda segundo as estatísticas, as mulheres são duas vezes mais suscetíveis a um das manifestações mais comuns da depressão do que os homens.
Entretanto, o que vem a ser essa angústia que muitos crêem apenas pós-moderna, que todos falam, mas nem todos sabem direito do que se trata? A verdade é que ainda paira sobre o assunto muito de puro preconceito.
Depressão é um distúrbio de neurotransmissores químicos, dificultando as trocas de informações cerebrais. As causas são multifatoriais. Elas podem ser genéticas e/ou psicossociais.
Nos casos genéticos, isto significa que pessoas em cujo histórico familiar conste casos de depressão, a predisposição à doença é maior. “Nesses indivíduos, há um defeito em um gene provocando a diminuição nos neurotransmissores químicos cerebrais (noradrenalina e serotonina)”, explica o médico.
Porém, a depressão também pode ser provocada por situações como estresse prolongado, competição, perdas, luto, uso de álcool e outras drogas, esgotamento físico ou nervoso (os “workaholics”, por exemplo), transtornos físicos (hipotireoidismo, lupus e diabetes), entre outros.
A doença se manifesta de várias formas: fobia social, transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome do pânico, depressão ansiosa e depressão inibida. Além disso, ela também varia de grau, podendo ser leve, moderada ou grave. Para um episódio ser considerado depressivo, é necessário que dure mais de duas semanas.
Segundo o médico Luiz Nunes, a depressão pode ser ainda unipolar e bipolar. A primeira é quando apresenta apenas episódios depressivos. Já a bipolar, “ é quando apresenta episódios depressivos e/ ou maníacos, que se caracterizam por humor exaltado, expansivo ou irritável, pressão por falar, fuga de idéias, sono diminuído, auto-estima elevada, idéias de grandeza, envolvimento excessivo em atividades prazerosas e hiperatividade”, explica.
O tratamento consiste em atuar em duas áreas: psicoterapia e medicamentos. “De 1950 para cá, a utilização de medicamentos tem sido bem eficaz. Embora exista um mito de que estas drogas possa provocar dependência ou prejudicar, os antidepressivos bem administrados pelo médico são fundamentais no processo”, revela.
O tempo de uso dos medicamentos varia de acordo com cada paciente e o desenvolvimento da enfermidade. “Entretanto, o mais importante é que as pessoas deixem de encarar a depressão com o estigma que até hoje ela carrega, a de uma espécie de loucura ou, no mínimo, a de uma bobagem. Não tem nada a ver, ela é uma doença como outra qualquer . E requer cuidados”, alerta.
A causa da depressão (etiologia)
Seja a doença de origem biológica ou psicológica, o evento final será sempre alterações no sistema neurofisiológico, ou seja, nos neurotransmissores cerebrais (noradrenalina e serotonina). Eles diminuem no indivíduo depressivo. Com isso, a troca de informações no cérebro reduz a velocidade, o que provoca a depressão. Os neurotransmissores químicos têm papel importantíssimo na troca de informações entre os neurônios. Informações estas que dão a velocidade com que o indivíduo “funciona” (pensa, raciocina, sente, intui, atua, reage, expressa sentimentos e também faz com que seus órgãos funcionem: coração, pulmão, ouvido, tubo gastrointestinal etc.). É por isso que um indivíduo depressivo acaba desenvolvendo pseudogastrite, pseudolabirintite, entre outros.
O medicamento regulariza a função dos neurotransmissores. Numa situação normal, os neurotransmissores, depois de realizarem sua função, são destruídos pelo organismo. Num organismo doente também acontece o mesmo, não existe distinção. O que ocorre com os medicamentos é que eles impedem a reabsorção dos neurotransmissores. Não são destruídos. Assim, consequentemente, eles continuam na fenda sináptica (ponto de contato entre os neurônios), prontos para serem reutilizados.
Existem soluções!
Vários profissionais da área de saúde batem na mesma tecla: frisam que depressão é uma doença. Isso significa que o tratamento, na maioria dos casos, inclui cuidados médicos e medicamentos. Entretanto, a psicoterapia e várias outras técnicas atuam como coadjuvantes importantes no prognóstico.
“Nas terapias de base corporal, todas as doenças, independentemente das causas, estão associadas a alterações no nível de energia que circula e permeia o organismo. O bloqueio ou o enrijecimento dessa energia ocasionados por fatores distintos nas fases do desenvolvimento psicossexual são as fontes de todas as doenças psicossomáticas. Dentro dessa perspectiva, o corpo é um arquivo de emoções. E é assim que tratamos a depressão, através do que o corpo nos mostra. Sem desconsiderarmos o aspecto médico, buscamos trazer à consciência do paciente, aspectos ainda não conscientes. Isso por meio de técnicas específicas e interpretação emocional que possibilitam o desbloqueio emocional visível no próprio corpo. Estudos revelaram que as duas formas de depressão mais facilmente reconhecidas são encontradas com maior incidência em pacientes cujo desenvolvimento normal foi interrompido na fase oral”. Leninha Garcia, psicóloga e psicoterapeuta corporal.
“Considerando a vida como uma linha reta, a depressão seria a parte mais baixa entre dois pontos, onde tudo perde a razão de ser. Quando não há nenhuma contra-indicação, a terapia profunda através da vivência do mesmo trauma sofrido, ajuda o indivíduo a compreender melhor i lidar com suas próprias emoções. O resgate de lembranças passadas, por indução da hipnose ou estado alterado da consciência, faz com que a pessoa, mesmo consciente, reviva o fato traumático, compreendendo que fatos passados estão separados do cotidiano atual. Assim, da mesma maneira que, inicialmente um trauma levou a um determinado estado, revivenciado e compreendido ele é superado, possibilitando uma reorganização interna profunda”. Cláudio Américo Sproesser, psicoterapeuta que adota a abordagem rogeriana e os estados alterados da consciência como terapia de apoio .
“O nome já simboliza algo. É a falta de movimento, o que não se movimenta são as emoções. A falta delas. A homeopatia estimula a força vital que é o campo energético mais próximo do corpo físico celular. A partir daí pode-se usar estímulos homeopáticos via oral e também via injetável (mesoterapia injetável) nos casos mais severos. Também é possível mobilizar essa emoção utilizando outras técnicas naturais muito eficientes como, por exemplo, certas técnicas de intensificação dos movimentos respiratórios, a dança e catarses, fazendo com que a pessoa expresse sua raiva, seu choro ou seu medo, enfim qualquer coisa que mobilize seus estados emocionais reprimidos. A integração de terapias químicas e homeopáticas não é incompatível, já que atuam em níveis diferentes”. Alcides Marrocos Andrade, médico clínico geral homeopático.
“Durante a depressão é necessário detectar o problema que está por trás. Qual a raiva, qual a tristeza. Normalmente, as pessoas olham e vêem que têm tanta coisa a mexer que acabam por querer desistir.É importante ser coerente com o desejo que mantêm dentro de si e com as conseqüências. O tratamento da depressão exige passar pelas emoções. Geralmente, ela deixa de dizer o que deseja para que não ocorram conflitos, mas se fechando, ela vai interrompendo os fluxos do próprio desejo e chega num ponto que não sabe mais o que quer. Primeiro ela reclama muito, o pior é quando não reclama mais. Reclamar é simbolicamente chamar de volta, o que às vezes é complicado, podem ser necessárias mudanças não socialmente aceitas (rompimento de padrões, separações, passar por conflitos). E existe o medo do novo”. Sônia Vaz, psicóloga analítica junguiana.
Um grito silencioso
“Um rico industrial inglês de 50 anos contou que aos quatro foi parar numa escola dirigida por uma mulher fria, se servia um picadinho de carne sem gosto, em louça florida, que aprendeu a odiar. Lembrava da mãe saindo em carro vermelho e não a via por muitos meses. Ela não se despedia, porque detestava despedidas. Ele sentia muita mágoa por isso. Só aos 46 anos conseguir chorar ao falar da infância. Até ali reprimira as emoções. (…) A impenetrabilidade, a distância das emoções e a perda de brilha duraram 44 anos!” (Superando a Depressão).
Um mergulho na escuridão atrás de partes de você que deixou de sentir, deixou de acreditar. O céu é o mesmo, o sol é o mesmo. As flores continuam lá. Porém, tudo está embaçado e sem brilho. Os remédios, talvez, sejam o pára-quedas que permitam dar esse mergulho com mais segurança e a psicoterapia, a arma para dissipar a neblina a fim de reencontrar o que já não se acreditava possível.
Não importa que os problemas lá fora continuem os mesmos, mas a certeza de que a vida também pulsa interna e externamente, dá um ritmo novo a tudo. Os óculos negros são retirados do rosto, a máscara da escuridão é retirada dando lugar de novo à claridade. Como um cego que havia se acostumado com o escuro, o depressivo agora passa a ter que raprender a viver na luza. Ele não percebia que o seu “normal” não eram normal, que é possível ser alegre, sim. Apesar de tudo.
Observe as diferenças
Distimia – é uma forma de depressão leve e crônica. A pessoa costuma ser irritada e mal-humorada freqüentemente. Portanto, o dito popular tem razão: mau humor em demasia é doença, sim, e tem cura.
Tristeza – é um estado passageiro de ânimo negativo, decorrente de uma causa ambiental estressante.
Mau humor – estado de ânimo passageiro comum em qualquer pessoa, mas costuma ser freqüente na depressão, na distimia ou mesmo na tristeza.
Depressão - doença caracterizada por estado de humor rebaixado de duração de pelo menos duas ou mais semanas, onde estão presentes a tristeza, o mau humor e outros sintomas, tais como distúrbios de apetite (aumento ou perda significativas), de sono e distúrbios corporais (dores, tonturas, falta de ar etc.) . Além disso, também estão presentes a irritabilidade, a agressividade e idéias negativas, chegando a pensamentos suicidas.
Estado depressivo – funciona como uma espécie de balanço da vida. É um momento de estar em contato com nossas fraquezas, nossa fragilidade. São nossos momentos de baixa auto-estima. A avaliação para diferenciá-lo da depressão (doença) deve ser criteriosa e, na maioria dos casos, só pode ser feita por um profissional de saúde.
Sinais de advertência
- Insegurança, menos confiança em si mesmo, mais dependência dos outros
- Menos capacidade de concentração
- Maior indecisão
- Menos iniciativa
- Mais dificuldade para fazer as coisas
- Falta de prazer, seja em casa ou no trabalho
- Maior autocrítica
- Cansaço e preguiça em demasia
- Menos energia
- As sensações são menos intensas
- Quer distância das pessoas
- Desinteresse sexual
- Acha que a vida perdeu o sentido
- Tem pensamentos suicidas
- Sente um vazio interior
- Sente-se amargo, pessimista ou culpado
- Não liga para a aparência
- Não se sente atraente
- Dorme mal
- Engorda ou emagrece
- Está bebendo demais
- Está mais irritado
- Sente-se irreal, como se houvesse uma distância maior entre você e o resto do mundo
Fonte: Superando a depressão – um guia prático de auto-ajuda, de Dr. Richard Gillet, Associação Britânica de Medicina Holística, Ed. Nova Cultural.
in: Jornal de Londrina, 17/02/2002 – por Jossânia Navolar (Veloso)